ANDRÉA NACCACHE psicanalista Twitter: andreanaccache Facebook: Andréa Naccache ARTIGOS EM PDF ![]() (em 2010) PSICANÁLISE É o que faz um analisando para continuar suas sessões quando não entende o que diz (ou faz) seu analista. NA ESPERA DE UMA BOA CRÍTICA ATUAL (sobre Le livre noir de la psychanalyse, 2005) O jornal “Nouvel Observateur” noticiou no dia 1 de setembro o lançamento de um “Livre noir de la psychanalyse” – “Livro negro da psicanálise” – que reúne um grupo de autores dedicados a detratar Sigmund Freud. Sob o título “É preciso acabar com a psicanálise?”, a notícia do “Nouvel Observateur” reconhece o livro como parte do movimento das diversas orientações psi na França, em vista a influenciar as políticas do Ministério da Saúde. O jornal cita trechos de diversos artigos do livro; relembra - ainda que muito brevemente - os grandes críticos da psicanálise do século passado; e chama um psicólogo comportamentalista para contar histórias sobre o homem, Freud, diante de um historiador da psicanálise. Penso em comentar esse acontecimento editorial de três ângulos. Primeiro, o do próprio livro, como apresentado. Depois, buscando uma perspectiva da crítica da psicanálise. Enfim, considerando a clínica. (...) When he first met Salvador Dalí, Jacques Lacan was still in his thirties. He worked as a psychiatrist in Paris, and was not a bit as famed as he would be two decades later, for his contributions to psychoanalysis. The story that has been told about that specific encounter is quite significant to psychoanalytical clinic. Readers of the painter’s account on the meeting say that Salvador Dalí got stirred that day, or even furious. (…) PSICANÁLISE AO QUASE INSUPORTÁVEL (sobre a resistência à psicanálise) Todo psicólogo já ouvir dizer que o paciente resiste à análise do conteúdo inconsciente. Pessoas abandonam as sessões, fazem troca-troca entre os profissionais psi, ou ficam sondando um analista, pensam eternamente antes de pedir um horário, até que o indicam para outro. A idéia da tradição psicanalítica é que uma pessoa foge de falar o que lhe seria difícil. Mas o psicanalista a quem daremos atenção é Jacques Lacan, que não deixou o problema acomodado dessa maneira. Lacan percebeu que a inversão era mais proveitosa: quem resiste à análise é sempre o analista. Sem escape, para nós, à responsabilidade. (...) RELATÓRIO CONCEITUAL PENSAR DESIGN (da Semana de Design de São Paulo em 2008) Este relatório indica as atividades realizadas pelo núcleo PENSAR DESIGN na semana de 3 a 9 de novembro de 2008, com um breve relato jornalístico dos debates realizados em 3, 4, 6 e 7/11, do ponto de vista de sua curadora, com as limitações de ter usado apenas a memória como registro. Seguem ao relato a bibliografia básica do PENSAR DESIGN e apresentações sucintas dos colaboradores. (...) FELICIDADE É raro conversar com alguém que não demonstre estar feliz - relativamente a sua condição. A maioria se diz feliz e sabe explicar, por critérios próprios, os motivos. Os pouquíssimos que não - especialmente aqueles que se dizem deprimidos, azarados, ou estão em grandes brigas - mostram-se, muitas vezes, bastante satisfeitos com suas posições em face da vida, mesmo que elas não lhes tragam alegrias, nem a quem está em volta. Os doentes crônicos costumam encontrar grandes lições no que lhes acontece, e os agudos tratam-se rápido, quando não tiram algum proveito das situações momentâneas. O ser humano tem suas paixões de todas as condições. Até a cadeia estabiliza, tranquiliza, organiza. Há os que nem querem sair. Se é assim, entendemos porque tão raras pessoas fazem psicanálise. Se é assim, o número de pessoas que fazem análise é, no entanto, surpreendentemente grande. Quem procura a psicanálise? Talvez sejam aqueles que conseguem suspeitar, por um tranco da vida, por reclamação dos outros, ou até por simples inteligência, que sua forma de felicidade pode não ser a melhor - para si, ou para os outros. E sempre há em quê melhorar. A prova estava em campo neste domingo, final da Copa do Mundo. Vimos a camiseta vermelha que a jovem seleção espanhola vestiu depois do jogo contra a Holanda. Aquela camiseta ganhou sua primeira estrelinha sobre o brasão do país. "Campeões do mundo", uma vez. "Que pouquinho!", dizia nossa auto-estima. Nós temos cinco dessas, temos Pelé, somos temidos. mas foi a recém-nascida seleção chamada 'Fúria', que tem no apelido seu afeto com a bola, incansável correndo em volta dos gigantes holandeses e levando botina no peito, um time de meninos encantados com o título, de um país que nunca soube ganhá-lo antes, sem técninco campeão, sem estratégia bem-experimentada, que viu tombarem os grandalhões, levou a taça ao alto e cantou o belo trabalho. Impossível, confusa, ilusória, atordoante, a métrica do valor de si mesmo. (...) NÚCLEO DE CRIAÇÃO Inscrições abertas.
Grupo de pesquisa e experimentação do processo criativo, em campos variados e alternantes: publicidade, cinema, música, arquitetura, moda, design e produção 3D, gastronomia, arte contemporânea. Desenvolvimento contínuo de trabalhos conforme a preferência pessoal dos participantes. Reuniões quinzenais, segundas-feiras, 20h30Imagem (abaixo): Experimentação com maquete inspirada no trabalho de Frank Gehry, dirigida pela arquiteta Alessandra Suguimoto. Uma análise da auto-imposição de limites como elemento necessário ao processo criativo (e à produção de linguagem). Núcleo de Criação, out-dez de 2010. "Quem tem medo de trabalhar?" ![]() (Notinha natalina) AMOR DEIXADO AO PÉ DA ÁRVORE Há quem acredite que dizer "eu te amo" é um presente. Não é. "Eu te amo" é só o pacote. Um veículo. Uma vez pronunciadas as palavras, é preciso ver com cuidado quem veio entregue no pacote, em quais condições. "Eu te amo" sugere muito cuidado. ![]() TERRITÓRIOS SEM RISCO (sobre o senso de risco no Ocidente) O presente trabalho investiga as diferenças entre o senso de risco nas culturas ocidentais e orientais, com base no pensamento psicanalítico e em bibliografia sociológica, antropológica e filosófica, para discernir os fatores envolvidos no senso de risco ocidental e identificar em que condições, mesmo no Ocidente, eles estão ausentes. Examinamos, portanto, primeiramente, como o senso de risco pode ser diferente entre as culturas ocidental e orientais (tomamos por referência o Japão). Finalmente, defendemos que, na cultura ocidental, há campos não fundados em nosso senso de risco, que seriam justamente os campos lúdicos e criativos. (...) (Diário de viagem: Dubai I) BICADINHA NA BOCHECHA "Se você tem milhões, ou talvez um bilhão, e tiver vontade de pegar um 4x4, dirigir livre pelo deserto à noite e jantar as mais delicadas especialidades árabes em uma tenda tranqüila, aqui não há perigo". Dubai é endereço para os colecionadores de dinheiro, onde o entretenimento é servido em bandejas de prata. A cidade, coberta por câmeras de segurança e penalidades implacáveis, não carimba passaporte de malandro. O código dos costumes sociais é o mesmo que o criminal, ambos sob o olhar grave da autoridade religiosa. Não é preciso viaturas nas calçadas. As câmeras de vídeo contínuas lembram o infindável ego descrito por Freud: "Para um funcionamento adequado, é necessário que a mais elevada dessas instâncias (da psique) tenha conhecimento de tudo o que está acontecendo, e que sua vontade penetre em tudo, de modo que possa exercer sua influência. E, com efeito, o ego sente-se seguro quanto à integridade e fidedignidade das informações que recebe, bem como quanto à abertura dos canais através dos quais impõe suas ordens" (no artigo "Uma dificuldade no caminho da psicanálise", de 1917). Lição de Sigmund Freud, onde houver controle pelo ego, haverá a explosão do irresistível humano. "O ego não é senhor em sua própria casa", deixou escrito o psicanalista, notícia inevitável para um sheik do século seguinte. A imprensa de Dubai guarda um estrito registro criminal. Não dos pequenos roubos de carteira, em que a ocasião faz o ladrão, mas da pulsação humana mais violenta. Quase só uma vez ou duas na história - e é bastante - , um radical dá tiros no líder religioso de sua oposição, em frente à mansão onde o político veraneia a beira-mar, e põe sangue na calçada florida em cor-de-rosa e amarelinho do deserto árabe. Quase em um só sol a cada 365, um menino ou uma turista podem ser pegos pelo desvario sexual de outrem, para fazer história de estupro e morte. A deliciosamente segura Dubai guarda, nas suas entrelinhas, contos tão humanos quanto em qualquer outra parte, mas ali, sob as roupas sem decotes e nas casas sem janelas, ou na complacência das fantasias mais festivas, milionárias e tropicais, a paz de andar na rua sob a luz da lei faz lembrar mais nitidamente as urgências da existência e do sexo das pessoas. Montesquieu escreveu sobre os antigos sultões, povos do calor extremo que, perdidos entre as areias, eram tentados ao prazer infinito do harém e à brutalidade de ter a vida e a morte dos súditos nas mãos. Mas não em Dubai. Lá, onde um casal inglês é preso por transar na praia, "fora do casamento" e "ofendendo a decência pública", o hotel passa a orientar seus hóspedes, enquanto lhes serve um brunch à beira das maiores piscinas do mundo, sem limite de comida ou champagne: em Dubai "it is strongly recommended that you employ discretion when expressing affection in public. Anything more than a peck on the cheek could offend those around you and even possibly lead to police involvement". - "qualquer coisa mais que uma bicadinha na bochecha..." - um "selinho" - "...pode ofender as pessoas em volta e levar ao envolvimento da polícia". Nas ruas de Dubai, "a kiss on the hand may be quite continental, but diamonds are a girl's best friend" - os diamantes serão os melhores amigos das garotas.
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OLHAMOS EM VOLTA (Nós somos muito jovens) :: LANÇAMENTO DO VÍDEO O vídeo - primeira produção em filme realizada dentro dos Núcleos Clínico e de Criação - foi lançado em 30 de maio e exposto em 9 de junho na palestra Illuminações, para a Escola Panamericana de Arte e Design. Para assistir, em inglês e português, ir à página Vídeos, à esquerda, ou aqui. PARCERIA DE PROPÓSITOS (sobre a relação entre psicanálise e medicina) Entre “eu tenho um amor” e “eu tenho um tumor”, a diferença não é só de umas poucas letras. Nem é a diferença entre a vida e morte, como alguém ávido por sentido poderia imaginar. Quando uma psicanalista fala a médicos, como esta noite, ou quando médicos falam a psicanalistas, uma importante diferença aparece. Poderíamos quase dizer que “eu tenho um amor” é assunto de falar com o psicanalista, enquanto “eu tenho um tumor” é assunto de falar com o médico. Uma diferença lógica entre essas duas afirmações é sua forma de verdade. As duas atestam a existência de algo. A primeira, um amor. A segunda, um tumor. Tanto faz se malignos ou benignos, simples ou complicados, um e o outro. O bom professor explicará que a primeira afirmação é de uma verdade “subjetiva”, e a segunda de uma verdade “objetiva”. Isto quer dizer que o tumor, se a afirmação é verdadeira, poderá ser comprovado. Ele tem que estar lá, entre o dedão do pé da pessoa e seu couro cabeludo, em algum ponto externamente visível, ou internamente captável pelo scanner. Se invadirmos a pele, pegamos o tumor, colocamos na mão, depois no microscópio. É um objeto tão perfeito para a ciência, que dizemos ser objetivamente real. Enquanto isso, o amor permanece quase invisível ao scanner, incapturável. Há médicos que dizem já ter visto a paixão na ressonância, mas ninguém nunca viu, na biópsia ou na radiografia do jovem namorado, o seu amor do tamanho das estrelas do céu. Para caber nos neurotransmissores, no cérebro, nada pode ser assim tão grande. No entanto, o jovem jura que é – o amor é assim enorme mesmo – e quanto mais ele fala, mais o médico estranha aquela conversa lunática na sala asséptica. O amor não suja a sala, mas polui o processo diagnóstico. Ou não? (...) O que fez a vida de Amy (mais que seu corpo) parar de funcionar? Fala-se demais, nas últimas semanas, sobre a biópsia da cantora - uma parada de órgãos que é apenas resultado de outra tragédia, anterior e mais delicada. Não vale dizer que Amy era assim porque talento é difícil de suportar - há gente demais provando o contrário hoje. Há gênios demais com vidas longas. Que diriam Paul McCartney, Mikhail Baryshnikov ou Picasso, que viveu 92 anos? (…) Uma conclusãozinha: PSICANÁLISE É... a clínica da ética do processo criativo. ILLUMINAÇÕES :: na Escola Panamericana de Arte e Design Após a palestra Illuminações, em junho de 2011, na Escola Panamericana, iniciamos a publicação de pequenos teasers com estímulos para o design desta década, no blog do projeto. Para visitar e conhecer os vídeos e artigos: link. ENTREVISTA SOBRE "O DESIGN DA EMOÇÃO" Questões de Vinícius Magalhães, do Centro Minas Design, a propósito da palestra apresentada na Templuz, em BH (organização Camilo Belchior), em 15 de junho de 2011. "Entendo que as pessoas usam seus 'códigos pessoais', seus valores, visões de mundo, como ferramentas cruciais para viver, mas que também sofrem deles. Há uma dor em estar restrito ao próprio ponto de vista, à própria capacidade de compreensão e às próprias regras. Por isso, as pessoas amam (e podem odiar, com intensidade, também) obras de arte e criação, design, quando elas expandem a nossa cultura, expandem nossa possibilidade de pensamento, compreensão e ação. Ficamos encantados quando um produto nos traz um bom insight - uma solução prática ou de estilo, de pensamento. É o que nos leva ao limiar de nós mesmos, aproxima do outro, de outra circunstância, das saídas dos nossos sofrimentos. Não é preciso ser 'novo', mas apenas levar as comunidades ou as pessoas, em suas experiências singulares, além delas mesmas, fazendo-as ganhar espaço na existência. Talvez, quanto maior o campo aberto, maior o amor. Não é assim nas parcerias que desejamos na vida? Que nos levem a tocar e, se possível, expandir os nossos limites?" (Sobre o trabalho criativo) BEM VINDA A DÚVIDA Uma resposta emocional muito comum de quem não se sente preparado para um trabalho é concluir que não deseja fazê-lo. Um golpe simples que o inconsciente dá, para restaurar o ego ferido pela idéia de ser incompetente. Isso é contado na anedota da raposa que ficou horas tentando pegar uvas muito alto na parreira. Depois de pular um tempão, tropeçar, escorregar, dolorida e cansada, ela resolve: "eu não ia gostar, as uvas estão verdes mesmo". A advertência freudiana vale para quem não chega a tanto – não desdenha as propostas novas que recebe - mas se agasalha em pensar: “não é para mim, melhor ficar com o já conhecido”. Em um processo criativo, faz parte não saber como se vai contribuir. Quanto mais novidadeiro um trabalho, mais é assim que se começa. Um arquiteto sabe que desenhará a casa, mas essa é sua parte não criativa. Se você souber como vai trabalhar, não é processo criativo. Por lógica, por definição. É processo adaptado ou repetido. É natural o criador achar que não é capaz. Se algo será novo, não faz parte do repertório. (Nada impede, porém, que a pessoa se trate e não precise mais se atormentar com isso, nem ficar no mecanismo de defesa que inverte a idéia e diz: "não estou tão interessado, mesmo". Isso é muito chato para os outros).
Sydney Pollack e Frank Gehry disseram ter sempre a sensação de não saber fazer
o próximo trabalho. Jum Nakao também o disse. Alex Atala diz ter medo de não
saber mais criar receitas no dia seguinte. PARCEIROS DE CONCEITOS E TRABALHO Para conhecer os detalhes dos projetos em empresas e instituições, ver o link. Colaborações ou trabalhos realizados: ![]() (clínica) NÃO SE FAZ UMA ANÁLISE... daquelas bem feitas, de cabo a rabo, sem mergulhar em um ponto em que a própria análise parece uma violência despropositada, em que o analista parece um caso de insanidade ou estupidez grave. É inevitável para o analista. Antigamente, no clássico trabalho freudiano, isso era explicado como dar oportunidade ao analisando de lidar com o ódio ao pai (outros dizem "à mãe má", se o analista for uma figura combinada de pai e mãe). Não se faz uma análise sem odiar aqueles que te afastaram do paraíso da compreensão e te obrigaram a falar para se defender. O analista afastará o analisando (novamente, e sucessivas vezes) do paraíso - suposto - da compreensão. Uma análise bem feita tem uma passagem estreita, dura. No clássico trabalho lacaniano, isso era chamado travessia do fantasma. Afinal, é transferência: a dor da vida, com todo o jeitinho de sofrer da pessoa, reproduzida na análise tal e qual veio de casa, agora em laboratório, para tratamento. Sentir o analista como sentiu o pai, ou a mãe, ou a pessoa que teve essa função - mesmo que o analisando já nem se lembrasse mais. Essa é a parte cirúrgica da clínica. De corte e sangue. Tratar a perseguição, o sentimento de rejeição, de acusação kafkiana - que a pessoa vinha evitando pela vida afora, ao anestesiar relacionamentos, ao não dizer o que precisava, jamais se aproximando de seu desejo. Um analista muito, muito doce, será visto como operador terrível. Um analista doce demais simplesmente não terá sido analista. As pessoas se surpreendem sobre como sujeitos podem se apaixonar pelos analistas menos atraentes, os mais mal-cuidados e feiosos. Sempre acontece. Seria mais surpreendente se se soubesse por aí que a análise atravessa um nível de raiva, de inveja, de ódio, que nem a máxima generosidade de um analista pode bloquear. Se houver análise, qualquer boa intenção será mal-entendida. A ponto de nossos livros, em um exagero de tecnicismo, recomendarem nem termos boa-intenção. E como não tê-la, com pessoas a quem esperamos semanalmente? O que pode então sustentar uma análise, no momento do ódio do analisando, da maior incompreensão do analista, é o gesto de desapego do analista. Que o analisando descubra, em um momento de solidão, que seu ódio é anterior à análise e precisa ser tratado. Experiência própria. (teoria) Em psicanálise, trata-se de amor e ódio, as únicas verdades lógicas possíveis. ;-) Ofereci este texto para ser apresentado por um psicanalista querido em um debate internacional. Houve confusão em torno da autoria - imaginou-se que eram palavras dele (que honra!). Eu soube disso mais de 20 dias após o debate, quando já havia publicado o trabalho há tempos. Acredito na importância desse conteúdo e, apesar do mal-entendido, com acordo do psicanalista em questão, mantenho o texto online. O texto traz 15 tópicos, problematiza a idéia de "droga" como tratada pelas políticas públicas, ao apontar um aspecto mais íntimo da relação com o corpo, a que a psicanálise dá atenção. "...a experiência da psicanálise, indicando como alguém pode encontrar transcendência em si mesmo, substitui a ingenuidade da tentativa de interceder sobre si pelo corpo. Ela ensina que a dor de alguém não é o 'rojão' da ditadura, como cantou Chico Buarque no governo militar, nem, como se canta hoje, o mercado em crise ou o filho que chora no berço à noite, mas que a dor humana é uma angústia tão pessoal quanto uma impressão digital, e que a experiência da travessia da angústia abre portas a demasiadas transcendências - e aí sim a vida deixa de ser trágica, e aparece o riso" (...) Uma arquitetura que é assinatura da contemporaneidade. Um design de mesma expressão. A pergunta retorna: haverá algo de especial nesse processo criativo, que é similar entre os Campana e Gehry, e fala especialmente ao nosso tempo? Se um aspecto chama a atenção, é a permissão das formas e do movimento manual e visual. A parceria do homem com o material. É significativo que nenhum deles tenha por ponto de partida um projeto bidimensional, o desenho técnico, que depois força a matéria física a se enquadrar. A finalidade do planejamento em papel é dar aos olhos treinados (que sabem ler as cifras) uma visão do conjunto, do todo e seus requisitos de execução - materiais, infra-estrutura, sequência de construção. O papel sintetiza o real para excluir o erro, a variação. É uma forma de controle por redução. Nem Fernando, nem Humberto, nem Frank Gehry têm necessidade disso - e ficam livres da tendência a regularidade e repetição que o projeto em papel provoca. (...) AS SAPATILHAS DE JACKSON NINGUÉM ADMINISTRA This is it! ou Ce n'est pas tout? "É isso!" ou "Isso não é tudo"? Michael Jackson ou Claude Lévi-Strauss? (...) É como se a experiência humana nos levasse inevitavelmente da postura de Lévi-Strauss à de Michael Jackson. Da cabeça baixa de Freud diante da tentativa de uma feitiçaria perfeita que não foi possível, chegamos a Lacan, cinquenta anos mais tarde, para fazer uma clínica inadmistrável como sua figura pessoal. Lacan foi o psicanalista que, ao invés de apostar no benefício do bom juízo, indicou um remédio virtuoso no equívoco, nos gestos, em qualquer pequeno traço da polêmica presença humana. Se a questão, para Freud, era suportarmos o corte em nosso narcisismo, Lacan fez uma clínica que valorizava o corte do discurso e suas reedições, com múltiplas interpretações abandonáveis, privilegiando a presença ao pensamento. (...)
Em quase todo conflito entre pais e filhos, em algum ponto, escondido ou explícito, lá está o dinheiro. Ouvimos os pais, quase sempre em dúvida sobre quanto dar e em quais condições. Eles hesitam entre o que desejam da vida para si, chegado o tempo em que podem se proporcionar certos confortos, e a necessidade inesgotável dos filhos, de idioma, esporte, festa, viagem. Jogo de resultado zero: para um ganhar, é preciso que o outro perca. “Ou eu, ou ele”. (...)
A MAGIA DA MULTIDÃO (sobre design e varejo) Seria quase um ultraje aquela poltrona na salinha de estar do apartamento. Se não for pelo tanto de bonecas de pano que ela tem amarradas umas às outras em quase um metro quadrado de volume colorido, irregular, festivo, talvez seja pela difícil economia de espaço quando se tem essa poltrona: ela é tão insinuante aos olhos que não fica bem entre a mesinha e a parede. Ela pede espaço visual. Pede tempo de caminhar em sua direção para discernir o que é aquele emaranhado de vestidos e cabecinhas e trancinhas de pano coloridas. A cada vez, uma boneca nos olha. A cada vez, o emaranhado de perninhas e rostinhos parece comemoração ou briga, sono de criança ou tumulto. Uma poltrona como esta é um pouco dona do espaço e do tempo de quem está com ela. Provoca um desvio nas leis físicas do lugar. “Multidão” foi o nome que os designers lhe deram. Multidão de bonequinhas para sentar em cima. Seus criadores são Fernando e Humberto Campana. (...) |
Em abril de 2012, Marcio Atalla entrou em contato comigo por indicação da equipe de professores que coordenam o Curso Comunitário de Atividade Física e Controle Alimentar da Escola de Educação Física e Esporte da USP para propor o atendimento de pessoas que estavam aos seus cuidados, como educador físico, no simpático programa Medidinha Certa, do Fantástico, na TV Globo. A proposta dele, apresentada a mim como coordenadora dos atendimentos de psicanálise do Curso em documento escrito, foi não apenas de realizar os atendimentos, mas também de levar a público os cuidados com o sobrepeso que preconizamos neste projeto da Universidade, sem fórmulas miraculosas, mostrando os esforços e o tempo empenhado pelos pacientes e profissionais no processo. O trabalho na USP é baseado no tripé: atividade física, nutrição e psicanálise. A proposta de tratamento desenvolvida na Universidade é não invasiva, de baixo custo comparado e de resultados duradores na vida dos pacientes. Ciente disso, Marcio quis que os três campos de incidência fossem expostos. Era preciso indicar a ocorrência do trabalho em psicanálise. É entusiasmante ver um tema de alta importância para a saúde nacional, reconhecido pela OMS como problema de atenção mundial, posto em questão de forma simples e clara, em horário e canal de relevância da mídia de massa brasileira. Fiquei muito contente de poder colaborar. Porém, como todos sabemos, não se pode levar a público nenhum aspecto da clínica psicanalítica. Tendo refletido bastante a respeito, e sendo a proposta do programa de uma interação com os participantes, decidimos organizar essa delicada participação sob uma série de termos que propus, e Marcio Atalla assinou. (ver mais aqui) China is changing. As the country opens its economy, its culture is also going to be fertilized by others, and mostly by ours. This seems to be already happening, with manifestations in the arts and on city streets, online and by outsider activists. We, of course, like what we see. The more China moves, the mode we hope for contact and affairs, dialogue and productive encounters. We expect them to get closer to us. On the next pages, I will refrain from that posture and, instead of appreciating China's approximation towards Western culture, celebrating our own image in a mirror, I will indicate some very precious cultural elements present in China and in an ethos of honor, which we could be really enriched from finding in them, and maybe recognizing it in ourselves. I believe we have very strong ethical reasons to welcome the interchange with China. (…) 2011/2012 CURSO COMUNITÁRIO DE ATIVIDADE FÍSICA E CONTROLE ALIMENTAR do Laboratório de Nutrição e Metabolismo Aplicados à Atividade Motora da EEFE-USP O programa do Curso envolve atividades físicas e orientação nutricional, além do serviço de psicologia. (ver em www.usp.br/eef/?curso_comunitario/mostrar/id/6) Os estudos do núcleo de psicologia, na pesquisa coordenada por Andréa Naccache, estão dirigidos ao tema das compulsões contemporâneas, com ênfase em obesidade, seus fundamentos e a busca de uma abordagem psicológica de ponta para tratamento. Voluntários para o Curso ou para o serviço de psicologia: ver detalhes. 1. O GRANDE MISTÉRIO DA CAUSALIDADE GENÉTICA... não está na genética, e sim na causalidade. 2. DOENÇAS DA PRESENÇA O médico trata as doenças da vida. O psicanalista, as doenças da presença - que falha, derrapa, se inflama, engasga, detona, mingua. Um médico cauto não conta com a vida, e um analista não pode contar com a presença. Há doenças demais pelas ruas. Um médico insiste em convocar a vida, porque conhece bem os horrores que a fazem escapar. O analista insiste em trazer à presença, porque as doenças que conhecemos são aquelas que impedem a visita, os olhos nos olhos, a conversa, o posicionamento pessoal de bem entre os outros, dar as mãos, o abraço. 3. NEURÓTICO É quem pensa muito e repetidas vezes, para chegar a uma decisão que o prejudica (sem mencionar o quanto prejudica os outros).
A história que lhe contarei aqui é sobre como passei a pensar que a vergonha pode ser um tema maior e global para a psicanálise do momento contemporâneo, um conceito que pode funcionar como ponte para trazer aprendizado e compreensão entre os países, especialmente quando imagino quais experiências podem advir da prática clínica na Ásia - e isto é apenas mais uma maneira de expressar o quanto me entusiasmei sobre seu bonito artigo (...) UMA IRONIA DA CLÍNICA Em certo sentido, o analista é pago para não ouvir. Penso afinal que se ele ouvisse - e conhecesse a beleza da maneira de ver a vida do analisando - teria que pagar por isso. Imagine alguém lhe abrir sua maneira de ver a vida, compartilhar sua luta. É tamanho presente que seria melhor, sendo o analista um estranho, cobrar dele. O analista é pago para ser surdo a essa beleza - e não se entregar à própria curiosidade. Em outras perspectiva, só existe uma maneira de demover a pessoa de um ponto de vista e abrir para ela outros: é não ouvindo o ponto dela, ou não se encantando por ele. Eis algo importante no estranhamento entre analisando e analista, que é inerente à análise. (Como talvez a qualquer convívio amoroso que leve as pessoas para além de si mesmas). ![]() JAPÃO: MOBILIZAÇÃO IMEDIATA Nos últimos anos, a população envelheceu e o Japão perdeu muito de seu ímpeto econômico. O país anda - no depoimento de japoneses nas ruas de Tóquio, em setembro de 2010 - "deprimido". Peculiar, vigorosa e encantadora, a cultura japonesa marcou o mundo também por seu fechamento convicto: nas empresas, principalmente homens seguiam carreiras, de recém-formados até a velhice, crescendo em remuneração por tempo de emprego, sem demissões - no endereço das companhias mais longevas do mundo. Lá, as pessoas se apresentam pelo nome e o nome da empresa onde trabalham, como se fosse "sobrenome". Descobrir a idade e o empregador de alguém é decifrar sua posição social e sua formação. Onde nem mesmo as mulheres eram recebidas, as empresas nacionais evitavam jovens que fizeram intercâmbio (porque eles não seguiriam a carreira e as práticas convencionais) ou estrangeiros. O rigor, que fez crescer a indústria japonesa, também a fez ser superada, nos tempos recentes, em que a inovação depende de pluralidade cultural e de choque de valores. Por isso, há algum tempo, o Japão, ciente de um desafio a sua tradição empresarial, buscava novidade. "Creative Japan" é um projeto nacional para eles (me ensinou João Gabriel de Lima, que tanto mais me fez ver sobre o país). Logo, a alta gastronomia, bom indicativo da ousadia e da receptividade de valores de um povo, que no Japão seguia uma rígida tradição de excelência, assumiu técnicas e gostos internacionais, inventividade e um caráter experimental que fez de Tóquio, rapidamente, a cidade com maior número de estrelas culinárias do Guia Michelin. Há poucas horas, um terremoto violento transtornou a ilha e devastou sua costa. Que uma mobilização internacional de ajuda ao Japão venha (logo) ao encontro de um país em renovação e abertura cultural. São Paulo, 11 de março de 2011 Acima: foto do bairro de Ginza, em Tóquio, setembro de 2010. Neste link: imagens da devastação do tsunami que eclodiu com o terremoto, no norte da ilha. ![]() Não sou a primeira a dizer que psicanálise não é uma profissão. Nela, nada se professa - nem como profeta, nem como professor. Psicanálise não se ensina. Ela, afinal, nem é um saber. É uma saída, simplesmente. Aliás, é a única saída das armadilhas da ordem social. Tanto daquelas que a sociedade nos coloca a cada dia, quanto das que alguém pode carregar consigo como crença na obrigação, na moralidade do mundo, na segurança da previsibilidade. (...) A PROVA DO AMOR (comentário do filme Fatal - Elegy - 2008) Qual o fascínio de Elegy? Ele separa o amor de todas as conveniências que a sociedade criou para a relação homem-mulher, e é como se desse a ver, por isto, o amor sem engano, em estado puro. (...) (Diário de viagem: Dubai II) CERTEZAS COBRADAS DO CORPO Entre agosto e setembro de 2010 passava-se, no mundo árabe, o ramadã - jejum de trinta dias que é um dos gestos fundamentais do islã. O quê de especial? Não haverá música ou comida nas ruas. Nesse mês, o povo islâmico irá mais à mesquita, fará caridade, ficará próximo à família e não pensará em sexo ou alimentação, nem mesmo água, do alvoracer ao pôr-do-sol. A comida servida ao estrangeiro, às crianças, aos doentes, fica atrás das cortinas, jamais vista da rua. O ramadã confirma o credo islâmico, na intimidade e na comunidade. É claro que as posturas variam. Um homem gordo e alto com quem converso na eclética Dubai, queixa-se: como é para ele difícil passar quinze horas sem água, aos 40oC do deserto! Outro, indagado sobre onde haveria comida para estrangeiros à tarde, balança a cabeça um mínimo e rápido, como se encerra o assunto - não pode sequer imaginar. O ramadã, nas variadas reações dos islâmicos, da reclamação ao radical cumprimento, faz pensar o quanto nós ocidentais também recorremos às provas do corpo para garantir o que talvez seja frágil na mente. Fora da psicose, para o ser humano, não há certeza absoluta. A neurose comum pede ao corpo que prove o que a mente, por si só, não consegue se convencer de que fez: a diversão, é preciso prová-la com a exaustão do corpo, de virar a noite - quando não com um porre, ou a comida exagerada. A descontração, em tantos filmes americanos, parece precisar da maconha. O tratamento da doença, mesmo a psi que não exigiria medicamento, é feito com a droga química. É preciso voltar afônico do show ou da briga, é preciso voltar gripado da neve, ou lesionado, da academia. Difícil para a mente saber que fez, se o corpo não levar a marca, o efeito. Tentar provar o amor com sexo. Voltar da guerra e da aventura com a cicatriz. Saber ter dado o máximo, no trabalho, pela extenuação das noites mal dormidas, o desconforto das viagens e da solidão, ou por suportar sofrido o ambiente duro de competição. O neurótico não se convence do que faz, sem sacrifício do corpo que o prove. Como será então com aqueles que sabem que viveram e curtiram, que viajaram e trabalharam, amaram e acreditaram, sem feridas, sem privações, sem descompressores químicos e sem doença? Sem cicatrizes e sem rugas? Dá para crer neles? A diferença é que, para estes, um íntimo, delicado saber será muito mais que bastante. Para além da neurose, um outro pacto com o corpo. Ele está em toda parte. Camisa engomada, calça de vinco bem passado, mesmo que não seja a costura mais nobre. Em Nova Iorque, atravessa as ruas do sul da ilha às dezenas. Em São Paulo, preenche as milhares de janelinhas acesas nos prédios da Berrini, do centro, da Paulista, no final de tarde, no começo de noite, quando entra a madrugada e as mulheres vão se deitar, e os jovens se tornam todo o movimento das ruas. (...) THE MARKET IS A FOOL (A letter to investors) In this article I will defend that improving legal regulations is nothing but a palliative response to the current financial crisis. People can avoid getting sick from their losses (not sad, but sick), if they are responsible for their own limitations. Rules are not limits. Legal rules hide human limits. (...) |





